TLEBS quer dizer Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário e a proposta da sua renovação tem causado alguma polémica. Para dar um «cheirinho» da saga, a quem ande arredado dela, segue a transcrição de um artigo do Público de finais do ano passado, assinado por Bárbara Wong:
«A nova terminologia (TLEBS) procura actualizar os termos utilizados na gramática portuguesa. Desenvolvida por um grupo de linguistas das principais universidades do país, foi aprovada em 2004 e tenta uniformizar os termos gramaticais. Como explica José Esteves Rei, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, envolvido na primeira versão da TLEBS, o grande objectivo é fazer com que "os alunos usem todos a mesma terminologia ao abordar a língua".
A TLEBS também actualiza a gramática, que evoluiu desde 1967, e valoriza-a, explica Paulo Feytor Pinto, presidente da Associação de Professores de Português (APP). "O lado bom é que a introdução da TLEBS tem permitido que os professores invistam na gramática, que não tem sido muito ensinada", acrescenta o presidente da Associação Portuguesa de Linguística (APL), João Costa.
A TLEBS já é aplicada no ensino secundário e foi avaliada no último exame nacional de 12.º ano. Só o ano passado chegou ao básico através de uma generalização decidida pelo Ministério da Educação (ME), que já veio dizer que está disponível para repensar a experiência mais cedo do que o previsto. O PÚBLICO tentou confirmar esta informação, mas não obteve resposta.
Para os mais críticos, estas novas regras vão afastar os alunos do Português. Jorge Morais Barbosa, professor da Universidade de Coimbra, diz que os alunos "têm coisas mais importantes para aprender", como "ler e escrever bem e sem erros". "Devem deixar-se essas preciosidades para quem quer estudar linguística na universidade", opina. Também Álvaro Gomes, linguista da Universidade do Minho e autor de uma gramática onde introduz a TLEBS, prevê que os alunos tenham "graves problemas de aprendizagem".
Não é um programaNo início desta semana, José Saramago, Graça Moura, Prado Coelho, Maria Alzira Seixo e Jorge Morais Barbosa, entre outros, subscreveram um abaixo-assinado a pedir a suspensão imediata da aplicação da terminologia. A APL já fez chegar ao ministério uma carta, mas no sentido contrário.
Se a TLEBS for suspensa vai legitimar-se que fique tudo como está, justifica João Costa. "A TLEBS foi feita porque os programas não seguiam a nomenclatura que estava em vigor." João Costa admite que a terminologia "esteja a causar alguns problemas, mas é bom que os professores tenham que estudar e investir na gramática".
Os presidentes da APP e da APL dizem que "a TLEBS é uma terminologia e não um programa", ou seja, deve ser adequado a cada uma das idades. "A imagem que se está a passar é que os estudantes vão decorar e debitar palavras e não é isso que vai acontecer", assegura João Costa.
"A TLEBS não pode ser entendida como um receituário de termos para professores e alunos memorizarem e papaguearem nas aulas. Cabe aos professores o trabalho da transposição didáctica dos termos a usar em cada ciclo de ensino, no respeito dos programas em vigor", escreve no PÚBLICO Filomena Viegas, professora de Língua Portuguesa, responsável no ME pelo acompanhamento em linha da TLEBS.
Há cerca de um ano, o ME enviou orientações às editoras para incluir a TLEBS nos manuais. Uma decisão contestada pela APP, que alega que esta ainda está em fase de experimentação. "A função da editora é respeitar as regras definidas pela tutela. Se a TLEBS for suspensa, é isso que faremos", declara Paulo Gonçalves, da Porto Editora.
ALGUNS EXEMPLOS DO QUE MUDA
"O João ficou em segundo lugar""segundo" era um numeral ordinal; passa a ser um adjectivo numeral, porque qualifica em que posição o João ficou.
"Vem para aqui""aqui" era um advérbio de lugar; agora é um advérbio adjunto de lugar
"A cobra é bonita""cobra" era um substantivo comum, feminino do singular; muda para nome comum, concreto, contável, não humano, animado, epiceno do singular. Era errado chamar-lhe "feminino" porque há cobras macho e fêmeas, por isso é "epiceno"
"Ele não viu nenhum homem" "nenhum" era um determinante indefinido; agora é um quantificador universal, porque exprime um todo.»
Da Nomenclatura Gramatical à nova terminologia1927 Num congresso de professores do ensino secundário fala-se, pela primeira vez, numa terminologia gramatical uniformizada.
1967 É finalmente criada a Nomenclatura Gramatical Portuguesa. Depois de 1974 surgem novas correntes gramaticais nas universidades que acabam por chegar ao ensino básico e secundário. Há professores que mantêm a terminologia de 1967, mas outros adoptam os novos termos.
1993 A partir deste ano e até 1997 professores e investigadores procuram sensibilizar o Ministério da Educação para a necessidade de haver uma terminologia uniforme. Com a reforma do ensino básico e secundário, a tutela propõe-se a fazê-lo.
1997 São criados uma dezena de grupos de trabalho, de que fazem parte docentes do básico e do secundário que, sob a orientação de professores do ensino superior, discutem a nova terminologia. Mais tarde é criado um novo grupo, constituído por apenas 17 linguistas, que conclui o trabalho em Dezembro de 2002.
2004 Só a 24 de Dezembro, durante o Governo de Santana Lopes, é publicada a Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário (TLEBS) em Diário da República.
2005 A 8 de Novembro, a ministra Maria de Lurdes Rodrigues define que ainda nesse ano lectivo (2005/2006) a TLEBS seria adoptada no ensino básico como experiência pedagógica em algumas escolas do país. A experiência é generalizada "ao universo das escolas do ensino básico" um ano depois.
2008 No final do ano lectivo de 2007/2008 termina o período de três anos consecutivos de experiência pedagógica e a TLEBS entrará em vigor.»
Uma das vozes mais activas contra a nova TLBS, foi a de Francisco José Viegas, a partir do seu
blogue.
Aqui, a selecção de alguns textos dedicados ao assunto, com links para outros.
Poderão participar na conversa todos os que de alguma forma se interessem pela língua que falamos e escrevemos, especialmente encarregados de educação e professores. O telefone é o 800 25 33 33 e há também, como sempre, a caixa de comentários deste blogue. A partir das 19, com Fernando Alvim.
Amanhã, Helena Sacadura Cabral, virá explicar-nos porque é que as mulheres gostam de homens.